Semicondutores, geopolítica e gestão, uma oportunidade para o Brasil

A economia mundial está passando por uma transformação que ultrapassa os limites da tecnologia e alcança diretamente a geopolítica, a indústria e as estratégias empresariais. A expansão da inteligência artificial, a transição energética, a digitalização dos processos produtivos e a reorganização das cadeias globais de suprimentos estão fazendo com que determinadas tecnologias sejam tratadas pelos países como ativos estratégicos, e os semicondutores talvez sejam o exemplo mais evidente dessa mudança. Presentes em praticamente todos os equipamentos que sustentam a economia contemporânea, os chips passaram a ser associados não apenas à inovação e à produtividade, mas também à segurança econômica e à soberania tecnológica.

A concentração mundial da produção de semicondutores, especialmente na Ásia, tornou-se uma preocupação para governos e empresas, sobretudo diante das tensões entre Estados Unidos e China e das incertezas geopolíticas envolvendo Taiwan. Como consequência, as grandes economias estão procurando reduzir dependências, diversificar fornecedores e recuperar capacidades industriais consideradas estratégicas. Para o Brasil, esse movimento representa uma oportunidade de repensar sua posição nas cadeias globais de valor e de buscar maior agregação de conhecimento e tecnologia àquilo que já produz.

Não se trata de imaginar que o Brasil possa reproduzir a trajetória de Taiwan ou competir imediatamente na fabricação dos chips mais avançados do mundo. A oportunidade está em identificar segmentos nos quais nossas características econômicas, industriais e naturais possam ser combinadas com conhecimento e tecnologia, permitindo ao País desenvolver competências próprias e participar de maneira mais relevante de uma cadeia que tende a ganhar importância nas próximas décadas.

É nesse contexto que a CEITEC adquire relevância. Criada em 2008, a empresa pública acumulou infraestrutura, conhecimento e profissionais especializados no desenvolvimento e fabricação de semicondutores. Em 2021, entrou em processo de liquidação no âmbito da política de desestatização então adotada pelo Governo Federal, mas esse processo foi revertido em 2023, quando sua retomada operacional foi autorizada e a empresa voltou a ser considerada estratégica para a política nacional de semicondutores.

A importância da CEITEC, entretanto, não deve ser avaliada apenas pela quantidade ou pelo tipo de chips que pode produzir. Em um setor no qual conhecimento, infraestrutura, profissionais especializados e capacidade de inovação são construídos ao longo de muitos anos, preservar e desenvolver competências nacionais possui valor estratégico. A empresa pode integrar um ecossistema mais amplo, envolvendo universidades, centros de pesquisa, empresas privadas, startups e instituições de financiamento, contribuindo para que o Brasil desenvolva capacidades próprias e reduza determinadas vulnerabilidades externas.

O País possui condições que tornam essa discussão especialmente interessante. Temos um grande mercado interno, uma agricultura competitiva, uma matriz energética com forte participação de fontes renováveis, recursos minerais relevantes, universidades e centros de pesquisa, além de uma base industrial diversificada. A oportunidade está em aproximar esses ativos da tecnologia e criar aplicações capazes de gerar maior valor em setores como agronegócio, energia, indústria, mobilidade, telecomunicações e defesa.

Essa possibilidade, contudo, não depende apenas de investimentos em tecnologia. Ela depende da capacidade de transformar conhecimento, infraestrutura e recursos financeiros em produtos, serviços, empresas competitivas e novos mercados. É justamente nesse ponto que a questão dos semicondutores se encontra com a Administração, pois a gestão é responsável por integrar estratégia, pessoas, capital, tecnologia, processos e mercado, transformando recursos disponíveis em resultados.

O cenário geopolítico também modifica a maneira como as empresas precisam tomar decisões. A dependência de um único fornecedor, de determinada tecnologia ou de uma região do mundo pode representar um risco que não aparece nos tradicionais indicadores de preço e custo. A gestão das cadeias de suprimentos passa, portanto, a incorporar questões como diversificação, resiliência e segurança, ao mesmo tempo em que a inovação e a capacidade de adaptação ganham importância para a competitividade empresarial.

Para as empresas brasileiras, essa transformação representa sobretudo uma oportunidade de reposicionamento. A reorganização das cadeias globais pode abrir espaço para novos fornecedores, novos mercados e atividades de maior valor agregado, mas a capacidade de aproveitá-los dependerá de investimentos em inovação, qualificação profissional, produtividade e capacidade de adaptação. Empresas que compreenderem antecipadamente essas mudanças poderão não apenas reduzir vulnerabilidades, mas também encontrar novos espaços em mercados que estão sendo redesenhados.

O Brasil já dispõe de instrumentos para apoiar esse movimento. A Lei nº 14.968/2024 criou o Programa Brasil Semicondutores, voltado ao fortalecimento da pesquisa, desenvolvimento, inovação, design, produção e aplicação de componentes semicondutores no País. O desafio, entretanto, não está somente em disponibilizar recursos, mas em assegurar que eles sejam transformados em conhecimento, inovação, produtividade, empresas competitivas e empregos qualificados.

É justamente aí que a qualidade da gestão se torna decisiva. O Brasil pode possuir recursos naturais, energia, mercado, universidades, infraestrutura e instrumentos de financiamento, mas esses ativos somente produzirão desenvolvimento se forem articulados por estratégias consistentes, com visão de longo prazo, governança, capacidade de execução e avaliação de resultados.

Essa agenda interessa diretamente aos Administradores. O profissional de Administração não precisa dominar tecnicamente a engenharia de semicondutores para compreender a dimensão estratégica dessa transformação, mas deve ser capaz de avaliar seus impactos sobre investimentos, cadeias produtivas, pessoas, mercados, riscos e organizações. Em um ambiente no qual economia e geopolítica estão cada vez mais interligadas, administrar significa também antecipar cenários, identificar oportunidades, reduzir vulnerabilidades e preparar as organizações para mudanças capazes de alterar profundamente seus mercados.

O Brasil tampouco deve procurar reproduzir a trajetória de Taiwan. Seu desafio é construir uma posição própria nesse novo cenário, aproveitando suas características e desenvolvendo competências nos segmentos em que possa ser efetivamente competitivo. A CEITEC pode integrar essa estratégia, assim como universidades, centros de pesquisa, empresas privadas, startups e instituições de financiamento e desenvolvimento.

Mais do que uma discussão sobre chips, estamos diante de uma oportunidade para repensar a inserção do Brasil na economia mundial. O País possui recursos naturais, energia, mercado, conhecimento científico e capacidade empresarial que podem sustentar uma participação mais sofisticada nas novas cadeias globais de valor. O desafio é transformar essas vantagens em conhecimento, tecnologia, produtividade e competitividade.

Essa transformação dependerá, em grande medida, da capacidade de articular aquilo que o Brasil já possui com aquilo que ainda precisa desenvolver. É nesse ponto que a Administração assume seu papel estratégico, ao transformar oportunidades em decisões, recursos em resultados e conhecimento em desenvolvimento.

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