O sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro enfrenta desafios significativos relacionados à sua dependência de grandes equipamentos e à falta de uma estrutura de contingência para garantir sua operação contínua.

O atual cenário que está ocorrendo com a estação de tratamento de água — ETA Imunana-Laranjal é um desses casos que nos faz reavaliar profundamente nossas grandes decisões enquanto sociedade, mas antes de abordamos esse caso em especial, voltemos no tempo dois meses.

Em 20/02/2024, na ponte adutora do tipo aqueduto (antiga adutora Veiga Brito), que passa sobre a Estrada do Catonho, que liga os bairros Sulacap e Taquara, ocorreu um vazamento entre trincas de uma das grandes adutoras da cidade do Rio de Janeiro, fato que deixou em alerta sobre riscos de possíveis paradas emergências do sistema de abastecimento de água em toda a região do Grande Rio de Janeiro.

Fonte: O Dia (Reportagem: Adutora rompe e forma ‘cachoeira’ na Estrada do Catonho, em Jardim Sulacap). Acesso em: 25/02/2024

<https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2024/02/6795962-adutora-rompe-e-forma-cachoeira-na-estrada-do-catonho-em-jardim-sulacap.html>

Agora em 05/04/2024, com a situação da paralisação do sistema Imunana-Laranjal, ainda em razão de alteração da qualidade da água bruta (ainda não tratada) no manancial de captação pelo poluente tolueno que paralisou a ETA Imunana-Laranjal que abastece cerca de dois milhões de pessoas em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, parte de Maricá (Inoã e Itaipuaçu) e a Ilha de Paquetá, no Estado do Rio de Janeiro, temos um cenário real e que confirma a preocupação maior, com o risco de desabastecimento em larga escala e que afete uma população numerosa de pessoas.

Fonte: CEDAE — Exames laboratoriais vão determinar retorno do sistema Imunana-Laranjal

<https://cedae.com.br/Noticias/detalhe/exames-laboratoriais-vao-determinar-retorno-do-sistema-imunana-laranjal/id/2999>

No momento, em que essa nota técnica está sendo redigida, ainda não temos a real previsão do retorno do Sistema Imunana-Laranjal, mas nossa abordagem não é sobre o problema em si, mas nas ações de previsões que precisamos buscar.

Esta nota técnica tem como objetivo destacar os riscos associados a essa situação, apresentando dados relevantes sobre a população atendida, os principais equipamentos envolvidos e os possíveis impactos de uma interrupção no sistema.

População Atendida:

A Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro é uma das áreas urbanas mais populosas do Brasil, abrangendo uma população de aproximadamente 12 milhões de habitantes, conforme dados do último censo demográfico. Esta população depende inteiramente do sistema de abastecimento de água para suas necessidades diárias, incluindo consumo doméstico, industrial e comercial.

Principais Equipamentos do Sistema do Grande Rio:

O sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro é sustentado por uma série de grandes equipamentos, dos quais se destacam:

Estação de Tratamento de Água (ETA): A ETA é responsável pelo tratamento da água bruta proveniente de mananciais, tornando-a própria para o consumo humano. A ETA Guandu é uma das principais instalações que atendem a região, fornecendo uma grande parte da água consumida na área metropolitana. Dentre os principais equipamentos do sistema de produção, podemos destacar: Estação de Tratamento de Água do Guandu (Nova Iguaçu), a Unidade de Tratamento de Ribeirão das Lages (Rio de Janeiro) e a Estação de Tratamento de Água de Imunana-Laranjal (São Gonçalo).

Rede de Distribuição: Uma extensa rede de distribuição de água canaliza o recurso tratado para os municípios e bairros da Região Metropolitana. Esta rede é composta por tubulações, estações elevatórias e alguns poucos reservatórios de distribuição que garantem o fornecimento contínuo de água para os consumidores. Dentre os principais equipamentos dos sistemas de adução, podemos destacar: A gigante Estação Elevatória do Lameirão, o Reservatório de Adução do Marapicu, o Reservatório do Monteiro (Engenho de Dentro), o Reservatório Mãe D’Água (Ilha do Governador), o Reservatório do Pedregulho (São Cristóvão), o Reservatório dos Macacos (Jardim Botânico) e o Reservatório Amendoeira (São Gonçalo). Além destes equipamentos, merecem destaque as antigas redes de distribuição do Sistema Acari que trabalha integrada as redes de distribuição oriundas do sistema de produção do Guandu.

Este olhar mais aproximado, demonstra que o macro sistema de produção e adução da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, é complexo e dependente de algumas grandes adutoras e túneis canais que são obras humanas e que podem falhar e que não possuem soluções de contingências.

O tema é pauta constante de discussões nas grandes universidades, escolas técnicas e as associações de classes que envolvem os especialistas, de que a Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro é uma das que apresenta grande vulnerabilidade hídrica no Brasil e que os projetos de contingência deveriam ser uma realidade no Estado Fluminense e que as obras já deveriam estar em curso, pois dependendo de onde venha ocorrer qualquer impacto ou acidente na operação de distribuição de água tratada, o resultado afetará diretamente a economia do estado e milhões de pessoas.

Nestes termos, o Estado do Rio de Janeiro e seus órgãos de gestão, incluindo o novo órgão executivo — o Instituto Rio Metrópole, que visa executar as decisões tomadas pelo Conselho Deliberativo da Região Metropolitana, conforme preveem a Lei Federal nº 13.089/2015 e a Lei Complementar do Estado do Rio de Janeiro nº 184/2018, devem observar a presente e preocupante situação e atuar em conjunto com as Concessionárias e demais operadores, de forma a buscar a implementação de um sistema de contingência ao sistema que atualmente se põem a prestar o serviço. Nem que seja um plano.

Caso uma grande parada forçada do sistema de produção e distribuição de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, como se confirmou, estaremos todos sujeitos aos seguintes impactos:

Dos Possíveis Impactos na Parada do Sistema:

A interrupção do sistema de abastecimento de água acarreta uma série de impactos adversos para a população e a economia da região, incluindo:

Da Escassez de Água Potável:

Uma paralisação prolongada do sistema resulta na escassez imediata de água potável para consumo humano, afetando milhões de pessoas e comprometendo atividades essenciais, como higiene pessoal, preparo de alimentos e consumo doméstico.

Do Impacto na Saúde Pública:

A falta de acesso a água potável pode aumentar o risco de doenças transmitidas pela água, como diarreia, cólera e outras enfermidades relacionadas à falta de higiene adequada.

Dos Prejuízos Econômicos:

A interrupção do abastecimento de água gera impactos significativos nas atividades comerciais e industriais da região, prejudicando setores como o turismo, restaurantes, hospitais, entre outros, e afetando negativamente a economia local e regional.

Do Desabastecimento de Setores Críticos:

Além das residências e estabelecimentos comerciais, setores críticos como hospitais, indústrias de alimentos e serviços de emergência seriam gravemente afetados pela falta de água, comprometendo a prestação de serviços essenciais à população.

Do Impacto na Imagem do Estado do Rio de Janeiro:

Trata-se de possível crise de abastecimento que indica falhas na gestão dos recursos hídricos e no planejamento urbano, o que pode refletir negativamente na reputação do estado. Isso poderia afetar a percepção do Rio de Janeiro como um local seguro, estável e propício para investimentos, turismo e residência.

A título de enriquecimento desta nota técnica, podemos olhar para o que também aconteceu, em fevereiro de 2024, com a cidade do México que enfrenta um colapso hídrico devido as baixas históricas de chuvas que geram o estresse nos sistemas de abastecimentos e que afetam aproximadamente 22 milhões de pessoas numa das maiores regiões metropolitanas do planeta.

Fonte: CNN — Brasil (Reportagem: Cidade do México está a poucos meses de ficar totalmente sem água). Acesso em: 28/02/2024 <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/cidade-do-mexico-esta-a-poucos-meses-de-ficar-totalmente-sem-agua/>

Nosso apontamento, é que regiões densamente povoadas como estas citadas nesta nota técnica, não podem prescindir de um plano de contingência que enfrentem os possíveis desafios.

Conclusão:

É uma prioridade que sejam implementadas medidas de mitigação de riscos e planos de contingência para garantir a operação contínua e confiável do sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. Investimentos em infraestrutura, manutenção preventiva e diversificação das fontes de abastecimento, além de um olhar nos sistemas de reservação, a exemplo dos pequenos reservatórios que podem ser soluções mais atuais e modernas para situações de emergências pontuais, são fundamentais para reduzir a vulnerabilidade do sistema e proteger a população contra os impactos negativos de eventuais falhas ou interrupções. Outra sugestão é investir em sistemas de monitoramento dos mananciais para que seja possível identificar contaminações em menor tempo, com rápida identificação do perímetro e uma busca de possíveis operações industriais ou empresariais que liguem o poluente ao poluidor. Estas são sugestões possíveis e que podem ser implementadas em médio prazo para proteger a população do nosso estado de possíveis crises hídricas.

*Adm. Wagner Siqueira é o atual presidente do CRA-RJ.