Nos últimos anos, o conceito de ESG — ambiental, social e governança — passou a
orientar discursos e práticas de empresas, governos e organismos internacionais. No entanto, o cenário global atual revela uma mudança profunda no significado prático dessa sigla. Em meio a guerras, disputas comerciais, polarizações ideológicas e instabilidade institucional, o ESG tem sido, na prática, substituído por um novo ESG’: Economia, Segurança e Geopolítica.
A economia mundial enfrenta pressões constantes, com inflação persistente, cadeias produtivas fragmentadas e políticas protecionistas. Ao mesmo tempo, a segurança — energética, alimentar, cibernética e territorial — voltou ao centro das decisões estratégicas dos Estados. A geopolítica, por sua vez, deixou de ser tema restrito à diplomacia e passou a influenciar diretamente investimentos, mercados e políticas públicas.
Esse ambiente de instabilidade é agravado pela radicalização ideológica e pela crescente beligerância entre nações e grupos políticos. Narrativas substituem o diálogo, e consensos mínimos, que antes garantiam previsibilidade institucional, tornam-se cada vez mais raros. O resultado é um mundo mais volátil, no qual empresas têm dificuldade de planejar, governos enfrentam incertezas permanentes e cidadãos convivem com insegurança crescente.
O que se observa, em essência, é a fragilização do contrato social. As bases de confiança entre Estado, mercado e sociedade estão enfraquecidas, comprometendo a capacidade de construir políticas de longo prazo e soluções coletivas para problemas complexos. Sem regras claras e amplamente aceitas, a gestão — pública e privada — passa a operar em terreno movediço.
Isso não significa que a agenda ambiental, social e de governança tenha perdido importância. Pelo contrário, ela continua sendo indispensável para o desenvolvimento sustentável e para a legitimidade das organizações. Contudo, ignorar o peso crescente da economia, da segurança e da geopolítica nas decisões contemporâneas é desconsiderar os fatores que hoje moldam, de fato, o funcionamento do mundo.
Nesse contexto, a Administração ganha ainda mais relevância como ciência social aplicada, capaz de interpretar cenários complexos e orientar decisões responsáveis. Gestores precisam ampliar seu campo de visão, incorporando análises geopolíticas, avaliação de riscos sistêmicos e leitura crítica das transformações globais.
O desafio atual é conciliar o ESG que aspiramos — baseado em sustentabilidade, inclusão e boa governança — com o novo ESG’ que se impõe na realidade, dominado por disputas econômicas, preocupações com segurança e rearranjos geopolíticos. Enquanto não formos capazes de reconstruir um novo contrato social que restabeleça confiança e previsibilidade, continuaremos vivendo em um ambiente de instabilidade que afeta governos, empresas e, sobretudo, a sociedade.
Adm. Wagner Siqueira
Presidente do CRA-RJ e do Fórum Est. dos Conselhos Profissionais do RJ