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Quando você me pergunta qual é a oportunidade de aprendizagens que esta crise do coronavírus possibilita à sociedade brasileira de sair da senda do “País do Futuro”, que nunca chega, e passar a ser o “País do Presente”, eu não vou lhe responder apenas com o lugar-comum que seja a educação e a assimilação imediata das tecnologias de ponta em fusão no mundo digital, no mundo físico e no mundo biológico.

O Brasil não pode ficar fora da Quarta Revolução Industrial por falta de brasileiros qualificados e pelo uso precário de tecnologias obsoletas de informação. Aliás, o home-office no Brasil, intensivamente utilizado neste momento de coronavírus, é caricato: nem os governos nem as empresas, em sua imensa maioria, estão preparados para o mundo digital que a modalidade exige. Em geral, ficamos em videoconferência e em troca de e-mails e de mensagens por whatsapps.

Estamos sempre adiando a implantação de tecnologias de ponta: ora pela ilusão nacionalista oriunda dos tempos do regime militar em que faríamos os nossos próprios hardwares e sofwares, ora pela resistência aos telefones celulares, ora pela discriminação contra a fibra ótica. E por aí vai.

Agora, resistimos à implantação da tecnologia 5G, quando nem conseguimos ainda universalizar o sistema 4G. O 5G no Brasil será americano ou chinês? É um tema eminentemente técnico, de alto interesse do país, passa a ser contaminado por credos e ideologias políticas.

Pelas idas e vindas, pelo “andar da carruagem” das indecisões nacionais, na melhor das hipóteses, só vamos começar a implantar a tecnologia 5G no Brasil a partir do ano 2022/2023. Continuaremos crescendo à velocidade do carro de boi enquanto a tecnologia avança à velocidade orbital.

Agora a história se repete como farsa e como tragédia: antes, ficamos fora da Primeira Revolução Industrial, exatamente, porque não fomos capazes, como nação, de assimilar, em extensão e profundidade, nos séculos XVIII e XIX, a educação universalizada e as tecnologias desenvolvidas à época. Ficamos à reboque da história.

Não é à toa que só tivemos a primeira faculdade no Brasil, assim mesmo de direito, em 1808. Nem pensar em faculdades de ciências físicas e biológicas, de engenharia, de ciências em geral. E só tivemos a nossa primeira universidade, a atual UFRJ, em 1910.

É preciso lembrar que grande parte dos países da América Latina tiveram as suas IES a partir do Século XVI, vale dizer, na segunda metade dos anos 1500.
O Brasil vive hoje uma crise total de sua economia. E não apenas agora decorrente da paralisação quase absoluta da economia mundial com a pandemia.

Nos últimos 45 anos, desde as crises do petróleo em 1973/1974, só crescemos de forma mais substancial nos governos FHC, com o plano real, e no primeiro governo Lula. E mesmo assim em taxas bem inferiores ao crescimento que o Brasil teve ao longo do Século XX até a terrível crise do petróleo de 73/74. Principalmente depois dos anos 1930 até 1974, o Brasil junto com o Japão foram os 2 países que mais cresceram no mundo ininterruptamente. No caso brasileiro, com governos democráticos e com ditaduras, como a do Estado Novo e a do Regime Militar de 74, assim como democracias eleitas como a do Presidente Dutra, a do Getúlio, em 1951, a do JK, a do Jânio e a do Goulart.

Entramos, desde então, num ciclo terrível de desindustrialização, perda de expressão econômica e numa explosão absurda de desigualdades sociais. Não há o que falar em década perdida, pois são décadas de decadência e de desempenhos pífios.

A única exceção é o agronegócio brasileiro – principalmente liderado por São Paulo e pela região do Centro-Oeste. O desempenho é tão espetacular que já alcançamos hoje o segundo e o primeiro lugares em produção agroindustrial em todo o mundo: grãos e frutas, pecuárias bovinas e de frango, suínos e de peixes. Há um país que dá certo! Aliás, dá muito certo: é o nosso agronegócio! E por isso, continuamos mantendo a invejável posição de uma das 10 maiores economias do mundo.

Mas o Brasil também vive uma crise social total, que emerge das massas abandonadas, das populações vulneráveis que estão principalmente nas periferias e nas comunidades faveladas das grandes e médias cidades brasileiras. São milhões de pessoas que sobrevivem em condições inaceitáveis de vida, incompatíveis com os padrões mínimos de dignidade civilizatória do Século XXI. Vivem em condições sanitárias similares aos contemporâneos da Peste Negra, na Idade Média, em 1347.

Os quase 100 milhões de brasileiros, absolutamente carentes da ação dos governos que sobreviverem à crise do coronavírus, ilustra por si sós as condições absurdas de vulnerabilidade a que estão submetidos.

Paradoxalmente, nós somos um país em que, geridos por uma década e meia de governos de esquerda, optamos por políticas de financiamentos fantásticos, por exemplo, de 567 bilhões de reais para as “empresas campeãs”, quando esses recursos seriam suficientes para realizar o saneamento básico, de água e de esgoto, em todos os 5700 municípios brasileiros.

Não é à toa que parcela substantiva do empresariado nacional, agraciada com subsídios e benesses, e quase a totalidade dos banqueiros emprestaram decisivo apoio às pretensas “esquerdizações” de nossa economia em prejuízo de uma sociedade de mercado.

A esquerda mundial sempre se caracterizou historicamente por ser uma corrente de pensamento que se guiava pela ideologia da igualdade e da liberdade. Para usar uma linguagem marxista, no Brasil a classe opressora virou “xodó” da esquerda governante em detrimento dos trabalhadores oprimidos. Assim, empresários e banqueiros sempre se locupletam com recursos privilegiados do BNDES, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica. Capitalizam os lucros e socializam os prejuízos: quebram as empresas e os bancos, como Pessoas Jurídicas (PJ), ficam mais ricos ainda como Pessoas Físicas (PF). E a população paga a conta!

Aliás, temo – e temo muito mesmo – que esta crise do coronavírus redunde num empobrecimento ainda mais profundo do povo brasileiro em relação aos bancos, que poderão nos surpreender com balanços azuis, muito positivos na saída da crise. Numa perda mínima de 6 pontos do PIB em relação ao ano de 2019 da economia nacional, poderemos constatar o escândalo dos lucros abissais dos bancos. Espero não ver isso de novo!

Mas o Brasil também vive uma crise total de liderança. Os nossos líderes são uma espécie em extinção. E aí não me refiro apenas aos políticos e aos dirigentes de nossos poderes institucionais, como o Executivo, Legislativo e Judiciário; não me refiro apenas aos governadores e prefeitos, mas também aos líderes da sociedade civil – às elites empresariais, intelectuais, aos dirigentes sindicais, aos líderes comunitários, religiosos de distintas denominações – refiro-me até aos dirigentes de ONG´s e de Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). Estes muitas vezes deixam de ter compromissos de benemerência, como nos ensina Madre Teresa de Calcutá, para terem interesses subalternos como verdadeiras Máquinas Terríveis de Calcular.

A crise de liderança se traduz quando pretensos líderes pensam em si nos seus interesses pessoais de mando e de poder e cada vez menos na vontade geral da nação e do bem comum. Realmente, os escândalos de todos os dias, amplamente trombeteados pela imprensa, tem gravitado em torno de duas questões centrais, vitais para o nosso cotidiano: a corrupção generalizada e a escassez de lideranças, em que uma fecunda e exponencia a outra.

Mas você me pergunta como tirar proveito da crise do coronavírus, como aprender com esta terrível experiência? Depois do complexo quadro de circunstâncias que acabo de descrever, mais do que nunca é preciso ter o ceticismo da razão para entender os nossos parâmetros e limites culturais e institucionais, assim como é preciso dispor da determinação da vontade geral e coletiva para jogar essas circunstâncias incapacitantes no lixo da história.

É preciso aprender com a experiência. E experiência não é o que acontece com a gente, mas o que a gente faz com o que acontece com gente. Para mim, acima de todas, a mais relevante dimensão que deve ser superada não é o vírus, que será dentro em pouco vencido pela ciência: tanto com remédios específicos que vão curar os infectados como pela descoberta da vacina que vai evitar a infecção. O nosso maior inimigo são os nossos próprios demônios, que infeccionam o povo e as nossas elites. Santiago Dantas dizia que “o povo enquanto povo cumpre o seu papel, mas as elites enquanto elites não cumprem o seu papel.” A atual realidade brasileira nega essa assertiva do ilustre político e intelectual.

O povo não é apenas objeto do processo histórico; pode, deve e precisa ser o sujeito, o protagonista maior de sua própria história. A pior coisa que pode acontecer ao oprimido é se sentir conformado com a sua própria opressão, especialmente quando ele próprio, por sua própria vontade, escolhe aqueles que serão seus opressores, ora pela direita, ora pela esquerda.

O nosso maior inimigo é a polarização política que exacerba posições divergentes extremadas, que se distanciam tanto ao ponto de um lado se aproximar do outro como se fossem lados opostos de uma ferradura: o discurso e a prática de um se tornam o contraponto análogo do outro. Ambos passam a dizer e a fazer o mesmo, mas se julgam absolutamente distintos.

Valem-se dos mesmos argumentos e justificativas em defesa de suas posições, até mesmo para explicar e justificar malfeitos de líderes e de seguidores. Como hordas fanatizadas por seus próprios pensamentos tomados como verdades, uns acusam os outros. Não conseguem enxergar quaisquer pontos de encontro em suas divergências para taticamente vencer o inimigo comum – no caso o vírus e a estagnação econômica – para posteriormente, vencida a crise, cuidar de suas diferenças estratégicas no campo político-eleitoral.

Não é possível politizar o vírus, nem o remédio e a vacina. Muito menos o isolamento e o distanciamento social. Questões de medicina e de ciência não são objeto de preferências ideológicas, mormente no enfrentamento direto e imediato da expansão da contaminação do vírus. A maior crise brasileira é o ódio.

Foi assim também com a decadência do “Brasil, o país do futebol”: quando o futebol se polarizou em facções fanatizadas que se odeiam e se agridem, quando não se matam, deixamos de ser campeões do mundo para perdermos de 7×1 em pleno Mineirão.

O nosso maior inimigo é a ignorância, em que muitos incitam o ódio, culpando a pandemia por grupos étnicos, como se vírus fosse uma arma chinesa de dominação do mundo. É o mesmo de querer atribuir ao Brasil a responsabilidade do Zica e do chicungunha como criações brasileiras para derrubar o primeiro mundo.

O nosso maior inimigo é a ganância, em que empresários, banqueiros e políticos sem ética e sem alma, em nome do combate ao coronavírus, querem tirar partido da crise para usufruírem maiores ganhos. É também falta de limites e de senso comum quando políticos, em nome do coranavírus, querem entubar, de uma só vez, no governo federal todas as contas dos maus governos estaduais e municipais, por décadas de gestões irresponsáveis, como se tudo fosse exclusivamente por culpa da pandemia.

É nosso maior inimigo tomar como verdade e disseminar amplamente fake news e teorias conspiratórias que não resistem à menor análise de coerência, de lógica, de autenticidade e de veracidade. Só vamos tirar algum proveito da crise se compreendermos que é preciso derrotar a polarização existente hoje na sociedade brasileira em todos os campos de pensamento e ação.

Precisamos vencer nossos demônios interiores que carregamos como indivíduos e como sociedade: o ódio de uns contra os outros; a ganância da “Lei de Murici”, em que cada um só cuida de si; e a ignorância nacional, que se transveste em sabedoria reafirmada a todo momento em atos e em palavras de ordem, em lugares comuns , em slogans e em chavões, cada vez mais apresentados de forma simplista e simplória.

Muito obrigado por sua atenção.

Fiquemos todos em casa para juntos amenizarmos o pico e a velocidade de contágio da doença. Vamos criar as condições objetivas para que os nossos profissionais de saúde não tenham de decidir entre os que devem ser entubados, porque tem menos chances de morrer, e aqueles que , com menos chances de sobreviverem por não haver equipamentos suficientes, vão morrer sem qualquer chance de lutar.

É preciso fazer uma opção moral pela vida. E que os governos e os empresários, executivos, cuidem hoje de construir caminhos de gestão econômica e empresarial que nos conduzam amanhã a sairmos da crise em condições minimamente satisfatórias. Não há o porquê de estabelecer qualquer contradição entre saúde e economia. Ambas são convergentes. Mas a vida em primeiro lugar. Fiquemos em casa.