Por Wagner Siqueira*, presidente do CRA-RJ e aluno da EBAP na turma de 1967
Após a criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), em 1938, surge também a Fundação Getúlio Vargas. O passo seguinte foi a implantação da primeira escola de administração do país: a EBAP – Escola Brasileira de Administração Pública. A partir desse momento, a Administração passa a ser
enxergada de forma mais ampla, consolidando-se como um campo científico, com método, teoria e formação estruturada.
Presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro (CRA-RJ) e formado em Administração, Wagner Siqueira explica que a EBAP foi responsável por formar dirigentes e técnicos que ocuparam posições estratégicas no Estado brasileiro, consolidando uma visão de Administração Pública baseada em planejamento, método e responsabilidade institucional.
– Nomes como Luiz Simões Lopes, Fernando Bessa de Almeida, Diogo Lordelo de Melo, Beatriz Wahrlich, Guerreiro Ramos, Belmiro Siqueira, entre muitos outros, oriundos do DASP, tiveram papel fundamental na estruturação desse pensamento e na transformação da Administração em um verdadeiro projeto de Estado – relembra Siqueira.
Nos anos 1960, o debate avança para a regulamentação da profissão. Wagner ingressa na EBAP em 1967 e, ainda como estudante, acompanha de perto as discussões que definiriam os rumos da categoria. “A lei representou apenas um primeiro passo nesse processo”, reforça.
Segundo Siqueira, o verdadeiro embate ocorreu durante a construção do decreto, amplamente discutido pela categoria em diferentes regiões do país, do Sudeste ao Nordeste. Mesmo sem participação direta, o então estudante observou atentamente todo o processo, influenciado também pelo ambiente familiar e por estágios ligados à reforma administrativa.
Esse período evidencia que a evolução da Administração não foi construída por imposição, mas por meio de um amplo debate coletivo. A consolidação da profissão também passou por disputas internas, eleições e intervenções nos conselhos profissionais, como as ocorridas nos anos de 1969 e 1976, sob a tutela do Ministério do Trabalho.
Para Wagner Siqueira, esses conflitos fazem parte da própria natureza da construção institucional. Os conselhos refletem a dinâmica da democracia, marcada por tensões, negociações e rearranjos de poder.
Ao olhar para esse percurso, Wagner reforça que a história da Administração no Brasil é inseparável da história do Estado. A profissão se construiu entre formação, regulamentação e disputas, sempre buscando afirmar sua relevância como ferramenta essencial para o funcionamento das instituições públicas e para o desenvolvimento do país.
(*) Wagner Siqueira é presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, vogal da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA) e da Academia Nacional de Economia (ANE), além de autor de livros sobre gestão.