DAS SEREIAS A MOLOQUE: TECNOLOGIA, PODER E OS SACRIFÍCIOS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Os mitos atravessam os séculos porque, mais do que narrativas fantásticas, expressam dimensões permanentes da condição humana. Mudam os cenários, evoluem as tecnologias, transformam-se os sistemas econômicos, mas permanecem os dilemas fundamentais relacionados ao poder, à liberdade, à ambição e à capacidade de discernir entre aquilo que promove a emancipação e aquilo que conduz à dependência. Por essa razão, algumas figuras da mitologia e das tradições religiosas continuam extraordinariamente atuais, mesmo em uma sociedade marcada pela inteligência artificial, pelos algoritmos e pela hiperconectividade.

Na mitologia grega, as sereias seduziam os navegadores por meio de um canto irresistível. Fascinados pela promessa de conhecimento, prazer ou realização, os marinheiros abandonavam a prudência e conduziam suas embarcações rumo aos rochedos onde encontravam a destruição. A força das sereias não estava na imposição, mas na sedução. O naufrágio não resultava da violência, mas da incapacidade de resistir àquilo que parecia irresistivelmente atraente.

Essa metáfora ajuda a compreender uma das características centrais da sociedade contemporânea. As grandes transformações tecnológicas das últimas décadas foram apresentadas como instrumentos de democratização do conhecimento, ampliação da liberdade individual, fortalecimento da comunicação humana e expansão das oportunidades econômicas. Em grande medida, essa promessa foi cumprida. Nunca foi tão fácil acessar informações, compartilhar experiências, desenvolver negócios, estudar, trabalhar remotamente ou estabelecer conexões com pessoas em qualquer parte do planeta.

Seria um equívoco negar os extraordinários benefícios proporcionados pela revolução digital. A tecnologia ampliou a produtividade das organizações, reduziu barreiras geográficas, acelerou processos científicos e tornou disponíveis recursos que até poucas décadas atrás pertenciam ao campo da ficção. Contudo, toda transformação histórica produz simultaneamente oportunidades e riscos. O desafio das sociedades maduras consiste justamente em compreender quando uma ferramenta deixa de servir às pessoas para começar a se servir delas.

É nesse contexto que surgem algumas das reflexões mais importantes sobre o capitalismo contemporâneo. A pesquisadora norte-americana Shoshana Zuboff chamou atenção para o fato de que as grandes plataformas digitais descobriram uma nova e poderosa fonte de riqueza: a transformação dos comportamentos humanos em matéria-prima econômica. Segundo sua análise, dados relacionados aos hábitos, preferências, deslocamentos, relações pessoais e decisões dos indivíduos passaram a ser coletados, processados e convertidos em ativos de altíssimo valor comercial. Nesse modelo, o usuário não é apenas consumidor de um serviço; torna-se também fornecedor permanente de informações que alimentam sistemas cada vez mais sofisticados de previsão, influência e direcionamento de comportamentos.

A economia digital inaugurou uma situação inédita na história. Durante séculos, a riqueza esteve associada à posse da terra, ao controle dos recursos naturais, à capacidade industrial ou à organização do trabalho. Hoje, parcela significativa do valor econômico está relacionada à captura da atenção humana. Cada clique, cada curtida, cada pesquisa realizada, cada vídeo assistido e cada minuto de permanência em uma plataforma digital representam oportunidades de geração de receita. A atenção converteu-se em um dos ativos mais disputados da economia global.

Essa mudança levou alguns pensadores a formular diagnósticos ainda mais contundentes. O economista grego Yanis Varoufakis, por exemplo, sustenta que o capitalismo estaria evoluindo para uma nova configuração que denomina tecnofeudalismo. Embora a expressão seja objeto de debate, ela oferece uma analogia provocadora. No feudalismo medieval, a terra constituía o principal meio de produção e os servos dependiam dela para sobreviver. Em troca do direito de permanecer na gleba, entregavam parte significativa de sua produção aos senhores feudais. Evidentemente, não se trata de afirmar que a realidade atual reproduz literalmente aquele modelo histórico. Contudo, é impossível ignorar que as grandes plataformas digitais se transformaram em territórios indispensáveis para a vida econômica, profissional e social contemporânea. Empresas dependem delas para vender e comunicar-se; profissionais dependem delas para construir reputação; consumidores dependem delas para informar-se, relacionar-se e adquirir produtos e serviços. Os territórios deixaram de ser físicos para tornar-se digitais, os dados converteram-se na nova matéria-prima e a atenção transformou-se em uma espécie de tributo permanentemente recolhido pelos proprietários dessas infraestruturas tecnológicas.

Entretanto, talvez exista uma metáfora ainda mais poderosa para compreender os desafios do presente. Diferentemente das sereias, que simbolizam a sedução, a figura bíblica de Moloque representa o sacrifício. Ao longo dos séculos, Moloque tornou-se um símbolo de sistemas que exigem dos seres humanos aquilo que possuem de mais valioso em nome de promessas de prosperidade, poder ou segurança. Independentemente das interpretações históricas e religiosas acerca dessa figura, seu significado simbólico permanece profundamente atual. Moloque representa toda estrutura social, política ou econômica que necessita de sacrifícios permanentes para sustentar sua expansão.

Ao observarmos a dinâmica da economia digital, torna-se inevitável refletir sobre aquilo que está sendo sacrificado em nome da conectividade permanente e do consumo incessante de informações. Não se trata mais da entrega de bens materiais ou de jornadas de trabalho extenuantes, como ocorreu em outras etapas da história econômica. Os tributos contemporâneos são mais sutis. Entregam-se horas preciosas de convivência familiar, parcelas crescentes da capacidade de concentração, momentos de reflexão, privacidade, autonomia intelectual e até mesmo a possibilidade de experimentar o silêncio e a contemplação. O que antes era protegido pela distância física e pelos limites naturais do tempo passou a ser continuamente disputado por plataformas cuja lógica econômica depende da permanência constante dos indivíduos em seus ambientes digitais.

A peculiaridade desse processo reside no fato de que ele raramente se apresenta como imposição. Assim como as sereias da mitologia atraíam suas vítimas pela sedução, a economia da atenção opera por meio da conveniência, do entretenimento e da sensação de pertencimento. Inicialmente, oferece facilidades e benefícios inegáveis. Em seguida, cria hábitos e dependências. Por fim, torna-se tão integrada à vida cotidiana que sua ausência passa a parecer impensável. O resultado é um sistema no qual milhões de pessoas colaboram espontaneamente para alimentar mecanismos que capturam sua atenção, coletam seus dados e transformam suas interações em riqueza econômica concentrada.

As consequências desse fenômeno ultrapassam a esfera individual. Elas alcançam as organizações, os mercados e as sociedades. Empresas de menor porte tornam-se progressivamente dependentes de plataformas globais para acessar consumidores. Profissionais veem sua visibilidade condicionada por algoritmos que não controlam. Setores inteiros da economia passam a operar segundo regras definidas por corporações privadas cuja influência transcende fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, parcelas significativas da renda das famílias e dos investimentos empresariais são direcionadas para ecossistemas digitais que concentram riqueza em níveis sem precedentes históricos.

Essa realidade exige uma reflexão que vai além da tecnologia. Trata-se de uma questão econômica, social, política e, sobretudo, administrativa. A Ciência da Administração surgiu para organizar recursos e esforços em benefício da sociedade. Seu propósito não é apenas gerar eficiência ou maximizar resultados financeiros, mas promover desenvolvimento sustentável, prosperidade compartilhada e melhoria das condições de vida. Quando a riqueza passa a ser produzida predominantemente pela captura de comportamentos e pela exploração da atenção humana, torna-se legítimo questionar se estamos diante de um modelo compatível com os objetivos mais amplos do desenvolvimento econômico.

A inovação tecnológica é indispensável ao progresso das nações. Nenhuma sociedade contemporânea poderá prosperar afastando-se da inteligência artificial, da transformação digital ou das novas formas de organização produtiva. O verdadeiro desafio consiste em assegurar que essas ferramentas permaneçam subordinadas aos interesses humanos e não o contrário. A tecnologia deve ampliar a liberdade das pessoas, fortalecer as organizações, estimular a criatividade e contribuir para a geração de riqueza e empregos. Quando passa a induzir dependência, concentração excessiva de poder ou erosão da autonomia individual, torna-se necessária a construção de mecanismos de equilíbrio.

Esse equilíbrio passa pela educação crítica, pela alfabetização digital, pela proteção de dados pessoais, pela transparência dos algoritmos, pela defesa da concorrência e pelo fortalecimento das instituições democráticas. Passa também pela formação de gestores capazes de compreender que o valor econômico não pode ser dissociado do valor social. Nenhuma inovação será verdadeiramente bem-sucedida se, para prosperar, exigir o sacrifício da liberdade, da autonomia e da dignidade humana.

Os mitos antigos continuam a oferecer ensinamentos valiosos para os desafios do presente. As sereias lembram que a sedução pode ser mais poderosa do que a força. Moloque recorda que toda promessa de prosperidade deve ser examinada à luz dos sacrifícios que exige. O tecnofeudalismo, por sua vez, alerta para os riscos de uma concentração de poder incompatível com sociedades livres e democráticas.

A grande questão do nosso tempo não é se a tecnologia continuará avançando. Isso é inevitável. A verdadeira questão é se teremos sabedoria suficiente para colocá-la a serviço do desenvolvimento humano, da geração de riqueza produtiva, da criação de empregos e da construção de uma sociedade mais justa. Caso contrário, corremos o risco de descobrir, tarde demais, que os instrumentos criados para ampliar nossa liberdade acabaram transformando-se nos mecanismos mais sofisticados de dependência já produzidos pela civilização.

 

Adm. Wagner Siqueira

Presidente do CRA-RJ e do Fórum Est. dos Conselhos Profissionais do RJ

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