O avanço da Inteligência Artificial vem provocando uma mudança profunda no comportamento dos universitários em todo o
mundo. Reportagens recentes mostram estudantes abandonando cursos considerados vulneráveis à automação e migrando para áreas vistas como “mais seguras” diante da revolução tecnológica. O receio é compreensível: a IA já escreve textos, produz relatórios, analisa dados, cria imagens e executa tarefas que até pouco tempo eram exclusivamente humanas.
Mas é exatamente nesse contexto que a Administração reafirma sua relevância histórica e estratégica.
A discussão central não deve ser sobre quais profissões desaparecerão, mas sobre quais profissionais serão capazes de liderar organizações em um ambiente cada vez mais complexo, tecnológico e humano ao mesmo tempo.
A Inteligência Artificial pode automatizar processos. Porém, ela não substitui liderança, discernimento ético, visão sistêmica, capacidade de negociação, inteligência emocional e tomada de decisão em cenários de incerteza.
O Fórum Econômico Mundial, no relatório Future of Jobs 2025, deixa claro que as competências mais valorizadas do futuro vão muito além do domínio técnico. Entre as habilidades mais demandadas estão:
* pensamento analítico;
* resiliência, flexibilidade e agilidade;
* liderança e influência social;
* criatividade;
* pensamento crítico;
* capacidade de adaptação;
* gestão de mudanças;
* inteligência emocional.
Ou seja: justa
mente atributos que fazem parte da essência da Administração. Como afirma Wagner Siqueira, presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro:
“A Inteligência Artificial amplia a capacidade operacional das organizações, mas continuará sendo o administrador quem dará direção, propósito, estratégia e sentido humano às decisões.”
A própria lógica do mercado confirma isso. O Fórum Econômico Mundial estima que até 2030 haverá uma transformação equivalente a 22% dos empregos globais, com 170
milhões de novas funções sendo criadas e 92 milhões substituídas, resultando ainda em saldo positivo de oportunidades.
O que muda não é a necessidade de gestores. O que muda é o perfil desse gestor.
O administrador contemporâneo precisa compreender tecnologia, interpretar dados e utilizar ferramentas digitais, mas, acima de tudo, precisa desenvolver competências humanas sofisticadas — aquelas que nenhuma máquina consegue reproduzir integralmente.
A IA entrega velocidade. O administrador entrega direção.
A IA oferece previsões. O administrador assume responsabilidades.
A IA cruza informações. O administrador interpreta impactos humanos, econômicos e sociais.
A Administração continuará sendo indispensável porque organizações são feitas de pessoas, conflitos, interesses, cultura, propósito e decisões estratégicas. Nenhum algoritmo substitui a sensibilidade necessária para conduzir equipes, gerir crises ou construir consensos.
O próprio debate global sobre o futuro do trabalho aponta para um modelo de complementaridade entre humanos e tecnologia. Especialistas já defendem uma “economia co-piloto”, na qual a IA potencializa profissionais ao invés de substituí-los integralmente.
Nesse cenário, o administrador deixa de ser apenas um operador de processos e passa a assumir um papel ainda mais estratégico:
* integrar inovação e pessoas;
* liderar ambientes híbridos;
* transformar dados em decisões;
* promover sustentabilidade organizacional;
* garantir governança e ética;
* administrar mudanças contínuas.
A Administração não perde espaço na era digital. Ela se torna ainda mais necessária.
Porque quanto maior a velocidade tecnológica, maior também será a necessidade de profissionais capazes de gerar equilíbrio, visão estratégica e liderança humana.
Como ressalta Wagner Siqueira:
“O futuro não pertence às máquinas. Pertence às pessoas preparadas para liderar as máquinas, interpretar seus impactos e colocar a tecnologia a serviço da sociedade.”
O desafio das novas gerações não é fugir da Inteligência Artificial. É aprender a conviver com ela de forma inteligente, ética e estratégica.
E nisso, a Administração seguirá sendo uma das profissões mais fundamentais do século XXI.
(*) Adm. Wagner Siqueira é Presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do RJ, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, Vogal da Junta Comercial do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA) e da Academia Nacional de Economia (ANE), além de ser autor de livros sobre gestão.