Burnout nas organizações: o colapso silencioso do trabalho moderno

Por Adm. Wagner Siqueira

Os dados do Ministério da Previdência Social, divulgados com exclusividade pelo portal G1, em 30 de abril de 2026, não surpreendem — mas deveriam alarmar profundamente. O crescimento superior a 800% nos afastamentos por burnout em apenas quatro anos não representa uma novidade. Trata-se, antes, da confirmação estatística de uma tragédia anunciada há décadas.

Desde 2005, quando publiquei um primeiro artigo sobre o tema, venho insistindo: o esgotamento profissional não é um fenômeno individual, tampouco episódico. É uma construção social, produzida no interior das organizações. Anos depois, ao aprofundar essa reflexão no livro A Síndrome de Burnout nas Organizações (2024) – disponível para download gratuito em https://admlivros.adm.br/produto/a-sindrome-de-burnout-nas-organizacoes/ – procurei demonstrar que estamos diante de uma patologia sistêmica, enraizada nos próprios modelos de gestão contemporâneos.

O que hoje se revela em números, já se evidenciava há muito tempo no cotidiano das empresas.

Um dos maiores equívocos — e talvez o mais conveniente — é tratar o burnout como uma fragilidade do indivíduo. Essa leitura não apenas é equivocada, como funcional para a manutenção de práticas organizacionais adoecedoras.

O burnout é, por definição, um “distúrbio emocional crônico e prolongado, com sintomas de exaustão extrema”, resultante de ambientes de trabalho adversos e de cobranças crescentes por desempenho .

Ou seja: não se trata de uma falha pessoal. Trata-se de uma resposta humana a contextos organizacionais desumanizados.

Insistir em soluções centradas exclusivamente no indivíduo — como treinamentos motivacionais, palestras inspiracionais ou programas superficiais de bem-estar — é ignorar deliberadamente as causas estruturais do problema.

As organizações contemporâneas operam sob uma lógica paradoxal. Nunca se falou tanto em trabalho em equipe, colaboração e propósito. E, ao mesmo tempo, nunca se praticou tanto a individualização extrema das metas, das avaliações e das responsabilidades. O resultado é a fragmentação das relações humanas no trabalho.

A literatura organizacional já demonstrava, desde as clássicas pesquisas de Hawthorne, que o desempenho humano está profundamente ligado às relações sociais e ao sentimento de pertencimento. Ignorar esse conhecimento — como vem ocorrendo há décadas — tem produzido efeitos devastadores .

Hoje, o que se observa é:

  • Sobrecarga contínua de trabalho
  • Pressão permanente por resultados
  • Insegurança e instabilidade nas relações laborais
  • Erosão dos vínculos sociais nas organizações

Nesse contexto, o burnout deixa de ser uma exceção para se tornar regra.

burnout - metas impossíveis

Uma das distorções mais graves do mundo do trabalho atual é a transformação do empregado em uma espécie de “empreendedor de si mesmo”.

Ele assume riscos, metas e responsabilidades como se fosse dono do negócio — mas sem autonomia real, sem segurança e sem participação nos resultados.

Quando fracassa, a responsabilidade é individualizada. Quando adoece, é tratado como inadequado. Esse deslocamento do conflito organizacional para o interior do indivíduo é um dos mecanismos mais perversos da gestão contemporânea. Ele transforma tensões estruturais em sofrimento psicológico. E o burnout é a sua expressão mais evidente. Não é mais possível tratar a saúde mental no trabalho como um tema periférico.

A inclusão do burnout como doença ocupacional e os avanços normativos recentes — como a exigência de gestão de riscos psicossociais no âmbito da NR-1 do Ministério do Trabalho e Emprego — representam um passo importante. Mas é preciso dizer com clareza: não podemos permitir que a NR-1 – que está prevista para entrar em vigor no próximo dia 26 de maio – se torne mais uma lei que não “pegue”. O Brasil tem histórico de produzir boas normas e péssimas práticas.

Se não houver compromisso efetivo das organizações, das lideranças e dos profissionais de gestão, estaremos apenas institucionalizando a hipocrisia: o discurso da responsabilidade social convivendo com ambientes de trabalho adoecedores.

As organizações precisam compreender que a saúde mental não é um custo — é uma condição de sustentabilidade. E aqui cabe um chamado especial aos profissionais de Recursos Humanos. Não é mais admissível que o RH se limite a ser executor de políticas voltadas exclusivamente para desempenho e controle. O RH precisa reassumir seu papel estratégico na construção de ambientes de trabalho saudáveis, humanos e sustentáveis. Cuidar das pessoas não é retórica. É responsabilidade técnica, ética e institucional.

O Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, signatário do Pacto Global da ONU desde 2011, reafirma seu compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Não por acaso, a Olimpíada Brasileira de Administração de 2026 https://www.obadm.org.br/ incorpora, entre seus desafios, o ODS 3 — um reconhecimento de que a formação dos futuros administradores precisa estar alinhada à construção de organizações mais saudáveis.

Não há desenvolvimento sustentável sem saúde mental no trabalho. Os números agora estampados nas manchetes apenas confirmam aquilo que já era visível para quem se dispusesse a enxergar. Estamos produzindo ambientes organizacionais que esgotam, adoecem e, em casos extremos, destroem vidas.

Wagner Siqueira é o autor do livro "A síndrome de Burnout nas organizações"
Wagner Siqueira é o autor do livro “A síndrome de Burnout nas organizações”

O burnout não é uma fatalidade. É uma consequência. E, como tal, pode — e deve — ser prevenido. Mas isso exige coragem para rever modelos de gestão, práticas organizacionais e, sobretudo, valores.

O crescimento exponencial dos afastamentos por burnout não é apenas um problema de saúde pública. É um indicador claro de que o modelo de organização do trabalho vigente está em crise. Não basta reconhecer o problema. É preciso agir.

Conclamamos todos os profissionais — especialmente aqueles que atuam na gestão de pessoas — a assumirem seu papel na transformação dessa realidade. Cuidar das pessoas é, antes de tudo, uma obrigação. E, cada vez mais, uma questão de sobrevivência das próprias organizações.

 

Wagner Siqueira é Presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do RJ, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, Vogal da Junta Comercial do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA), da Academia Nacional de Economia (ANE) e autor do livro “A síndrome de Burnout nas organizações”.  

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