Quando a unanimidade pode ser o caminho do fracasso
Há uma perigosa ilusão presente em muitas organizações: a de que o consenso é sempre uma virtude. Nem sempre é. Muitas vezes, o consenso é apenas a institucionalização do erro. Quando todos concordam rapidamente, sem divergência, sem contraponto e sem o saudável desconforto da crítica, é preciso desconfiar. Como ensina o clássico filme 12 Angry Men (12 Homens e uma Sentença), a verdade frequentemente começa com a coragem de um único dissenso. Foi um homem, entre doze, quem impediu que o conformismo condenasse um inocente. O filme é uma aula permanente para gestores: organizações que não toleram o contraditório tornam-se máquinas de reproduzir equívocos.
Toda burocracia tende a buscar estabilidade. O problema é quando a estabilidade degenera em acomodação e, pior, em estupidez organizacional. Daí a provocação — “toda burocracia é burra” — não como sentença absoluta, mas como alerta contra estruturas que substituem reflexão por rito, julgamento por procedimento e responsabilidade por mera obediência. Burocracias fracassam quando deixam de pensar. E isso ocorre, muitas vezes, sob a aparência de eficiência, especialmente em reuniões em que todos assentem, todos concordam, todos ratificam — e ninguém realmente analisa.
Foi precisamente esse fenômeno que o psicólogo social Irving Janis conceituou como Groupthink — pensamento de grupo. Sua
teoria mostrou como grupos coesos, em nome da harmonia e da unanimidade, podem tomar decisões irracionais, ignorar evidências, silenciar discordâncias e caminhar coletivamente para o desastre. Estudando fiascos políticos, como a Invasão da Baía dos Porcos (em Cuba, 1961) e a escalada da Guerra do Vietnam (1955 a 1975), Janis demonstrou que o erro compartilhado costuma parecer sensato quando ninguém ousa questioná-lo. Antes dele, William H. Whyte Jr. já percebia, nos anos 1950, o risco do conformismo organizacional. Janis deu nome científico ao problema.
Essa reflexão é particularmente atual num tempo em que se exaltam metodologias ágeis, decisões rápidas, reuniões curtas e alinhamentos velozes. Agilidade não pode ser confundida com superficialidade. Há reuniões — ágeis ou não — em que todos concordam por desinteresse, descompromisso, falta de foco, deficiência analítica, insegurança para divergir ou simples fadiga cognitiva. O silêncio, nesses casos, é interpretado como concordância. Mas pode ser apenas omissão. E a omissão, em gestão, custa caro. Muitas decisões ruins não decorrem de má-fé, mas da ausência de pensamento crítico.
A administração, como ciência social aplicada, não prospera no terreno da unanimidade acrítica. Boa gestão exige contraditório, diversidade cognitiva, dissenso qualificado e o que chamo de “coragem administrativa de discordar”. Conselhos, diretorias, comitês e equipes tornam-se mais inteligentes quando alguém pergunta: “e se estivermos errados?”. O bom gestor não teme a divergência; teme o consenso automático. Onde todos pensam igual, provavelmente poucos estão pensando.
O maior risco do pensamento de grupo é sua aparência de racionalidade. Ele se veste de cooperação, colegialidade e alinhamento, mas pode
esconder preguiça intelectual. É por isso que decisões estratégicas precisam incorporar o advogado do diabo, o questionador, o dissidente honesto. Organizações maduras não punem quem discorda; valorizam quem ajuda a evitar o erro coletivo. A inovação nasce do conflito produtivo, não da submissão cordial.
No fundo, a lição de 12 Homens e uma Sentença é simples e revolucionária: um grupo só é verdadeiramente inteligente quando permite que a dúvida tenha assento à mesa. O consenso pode ser uma conquista — ou uma armadilha. Quando vira culto à concordância, converte-se no consenso do erro. E todo gestor responsável deve saber: às vezes, a voz que contraria é a única que salva.
(*) Adm. Wagner Siqueira é Presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do RJ, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, Vogal da Junta Comercial do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA) e da Academia Nacional de Economia (ANE), além de ser autor de livros sobre gestão.