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Quando uma sociedade perde a capacidade de se indignar diante do escândalo, ela compromete o seu futuro como nação. Ela perde o seu valor como sociedade organizada. Passa a se orientar e a se comportar com descaso, desapreço e irreverência em relação ao próximo, em relação ao outro. É a banalização da morte: 100 mil mortos por COVID19, quase 3 milhões de infectados.

     Esta notícia desastrosa não mais sensibiliza a sociedade brasileira, a não ser os familiares e amigos das vítimas.

     Esse descaso e desinteresse é a alavanca, a gazua e a chave que potencializa e abre a atitude de omissão, de inaptidão e de desídia – até de leviandade – com que nossos governantes atuam diante de tamanha tragédia da pandemia do coronavírus.

     A atitude complacente de nossa população no enfrentamento da morte de tantos brasileiros justifica e legitima a irresponsabilidade dos governantes em tratar de forma tão escandalosamente incompetente a pandemia.

     O governo brasileiro não consegue olhar para si próprio e corrigir seus próprios erros. Reflete o próprio descaso e desinteresse de parcela importante da sociedade brasileira que trata a pandemia com um “ar blasé”, ou seja, com indiferença e insensibilidade que devia comover e chocar a todos com um mínimo de empatia para com o próximo.

     A crise do coranavírus escancarou as desigualdades sociais de nosso País. E a crise política exponenciou absurdamente as crises da saúde e da economia.

     Não estamos todos num mesmo barco: muito pior! Estamos todos num mesmo vendaval, em pleno oceano, só que uns abrigados em grandes transatlânticos, muitos outros em belas lanchas, e a maioria da população em barquinhos ou canoas.

1.         Mais do que nunca, é preciso compreender as circunstâncias que envolvem a realidade brasileira nestes tempos presentes de pandemia.

2.         O caos institucional se estabelece. E num país em confusão, em ambiente permanente de confronto entres os poderes da república e de polarização e radicalização política na sociedade, serão sempre os mais vulneráveis que levarão a pior.

3.         Não é à toa que o Brasil apresenta hoje os piores níveis mundiais de desempenho na pandemia.

4.         Costuma-se dizer que a crise sempre pode ser uma oportunidade para o novo, para a mudança. Mas pode ser também uma oportunidade para agravar os descaminhos de uma sociedade que não se entende, que não compartilha valores e expectativas comuns.

5.         Enquanto os poderes da república não se entenderem – Executivo, Legislativo e Judiciário -; enquanto as diferentes instâncias de governo – federal, estadual e municipal – não estabelecerem níveis mínimos de racionalidade de negociação e de convergência; enquanto a polarização e a radicalização política nos separar como nação, numa luta de “nós-eles”, certo-errado, bom-mau; enquanto o ganha-perde prevalecer, o vencedor será sempre o coronavírus: cada vez mais um maior número de infectados e de mortos.

A racionalidade política no Brasil hoje é tão baixa que não há mais como falar do brasileiro como HOMO SAPIENS, mas como HOMO MANIACUS.

6.         Não temos sequer gabinete de crise que articule as ações contra a pandemia em todo o país.

– Cada um por si: cada estado, cada município e o Governo Federal não têm uma estratégia comum de ação.

a)         Por que temos tantos doentes e mortos? Por que o governo erra com tanta frequência? Por certo porque ninguém está no comando, somos um barco à deriva sem dedicar atenção à crise como única e absoluta prioridade do timoneiro.

b)         O debate político prepondera em todas as mídias, na grande imprensa e nas mídias digitais. O escândalo político e a denunciação das forças antagônicas absorvem toda a atenção.

c)         tudo é motivo para a disputa política. Tudo é ideologizado no interesse de cada parte. O lockdown se transforma numa disputa ideológica, assim como os remédios que devam ser adotados. A ciência se subjuga ao interesse político. O presidente da República faz deliberadamente campanha contra o lockdown e a favor da cloroquina, como mantras ideológicos de marketing político. O Brasil hoje é administrado com base no confronto, na colisão, e não no entendimento, na negociação e na coesão que a todos deveria mobilizar no combate à pandemia.

d)         Ignorar especialistas e a ciência faz líderes- gestores reagirem tarde à pandemia. O mais das vezes, nem reagirem tarde, mas fazerem ironia e menosprezarem a doença.

6.         A luta contra a pandemia exige cooperação entre presidente da república e os governadores e prefeitos; a ação conjunta entre todos os poderes; a convergência das forças de oposição e da situação; a organização de todas as forças vivas da nação. Exige a ação patriótica de todos os brasileiros.

Os grandes problemas da sociedade só podem ser tratados por parcerias e alianças. Nunca por isolamento de quaisquer das forças políticas. O dever do líder é saber gerar confiança e esperança. Deixar o povo saber dos fatos, e, assim, ele – o povo- ficará consciente e empenhado, comprometido e engajado a superar colaborativamente a tragédia.

 No mundo da globalização, o coronavírus é a globalização da doença.

7.         O Brasil precisa de um choque de a) racionalidade; b) serenidade política; c) empatia.

Para a racionalidade é preciso valorizar a ciência e a razão; para a serenidade política é preciso superar a polarização e a radicalização, mas, acima de tudo, o florescimento de lideranças legítimas. Sair do perde-ganha para o ganha-ganha, abandonar a gestão pelo confronto.

Já para a empatia é preciso escapar de reações emocionais e da exacerbação de crises produzidas por absoluta incapacidade de gestão de temperamentos pessoais. É preciso que todos aprendam a conter seus temperamentos mercuriais e aceitar o próximo mesmo que não concorde com ele.

Privilegiar a saúde ou a economia é um falso dilema. As políticas públicas devem ser orientadas pela busca do bem comum, que inclui ambas as variáveis igualmente- saúde e economia.

Há que haver ações mais profundas e competentes, articuladas e negociadas de proteção dos governos para atenuar as repercussões na economia, protegendo as empresas e os empregos. Mas, acima de tudo, para proteger a vida das pessoas.

O que se faz hoje não é apenas pouco, é incompetente, ineficaz e ineficiente; daí os nossos terríveis e trágicos resultados até agora.