Os benefícios do capitalismo globalizado não são equitativamente distribuídos no conjunto da população e das nações, tornando ainda mais desigual a distribuição da riqueza.

Paradoxalmente, o capitalismo vai cada vez mais longe, justamente por não se dirigir – especificamente – a lugar algum. O mercado não tem um objetivo global, ele não é nada mais do que o encontro de uma variedade indiscriminada de objetivos individuais que buscam se realizar simultaneamente todo o tempo. Cada qual deseja realizar sempre mais. Nesse fluxo, sem limites intrínsecos, o capitalismo precisa dispor de limites externos para se conter. Ao contrário disso, como bem se refere Rosa de Luxemburgo, em sua clássica obra “A Acumulação de Capital”, vai sempre querer se expandir.

Por ser eminentemente parasitário, o sistema capitalista só consegue prosperar se encontra um organismo, ainda não explorado, que lhe forneça alimento. No entanto, não é capaz de fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, o que resulta na destruição, paulatina, das condições de prosperidade e de sobrevivência deste. Por isso, avança sobre os planos de previdência e de saúde em todo mundo. A questão causal das hipotecas dos subprimes da crise de 2008, e a invasão capitalista recente, depois da Guerra Fria, em todo o mundo oriental, são outros exemplos, apenas ilustrativos, da sanha parasitária capitalista tão bem descrita por Rosa de Luxemburgo nos primeiros anos do século XX.

Nunca suas previsões foram tão verdadeiras. Ademais, suas ideias e críticas ao Leninismo nunca deixaram de ser tão precisas. Mas, à época, não foram ouvidas e muito menos acatadas. Esses limites a serem interpostos hoje pela sociedade globalizada cidadã ao capitalismo e ao mundo das organizações empresariais são de natureza jurídicos-políticos ou institucionais-legais, morais e éticos. Em situações especiais, também espirituais ou religiosos, nos casos, por exemplo, de sociedades islâmicas, judias, e de outras teocracias em que não permaneçam os critérios da laicidade na gestão dos seus destinos. São limites que devem ser estabelecidos sobre o sistema capitalista em si, também, portanto, sobre as organizações empresariais, seus braços constitutivos. As organizações empresariais irão tão longe quanto puderem na busca da riqueza, se não forem limitadas moral e socialmente em seu expansionismo sobre a utilização dos recursos naturais disponíveis.

A Moral do Capitalismo

Não adianta querer moralizar o capitalismo de dentro para fora. O capitalismo não é moral nem imoral, ele é amoral. Por duas razões principais: a primeira é que para ser moral o capitalismo teria de ser uma pessoa. Mas não o é. Ora, o capitalismo é um processo impessoal, sem sujeito nem fim.

A segunda razão é que ele não funciona à luz da virtude e do desinteresse, mas do interesse de seus acionistas majoritários, muitas vezes bem concentrados, personalizados e familiares. Funciona orientado pelo egoísmo em detrimento de outros, quando não de todos.

Se o egoísmo é uma força expressiva na construção da riqueza pela via do capitalismo, efetivamente, ele não é suficiente para o desenvolvimento de uma civilização, nem mesmo de uma sociedade global humanamente aceitável. Para se alcançar isso, atenuar circunstâncias tão desiguais, é preciso impor limites e regras equânimes e equitativas ao mercado, desde que não sejam também elas mercantis ou mercantilizáveis.

Limites e Regras

Não peçamos ao mercado ou ao sistema capitalista para se auto imporem limites ou regras de constrangimento em suas ações expansionistas. Eles não os farão. Qual é o preço moral de um barril de petróleo ou de uma saca de café, de soja ou de uma tonelada de ferro? O mercado jamais o fará sob a perspectiva moral ou ética. E assim também procedem as ciências em geral, como a física, a medicina, a biologia e a economia como um todo ou nas suas especificidades. Não vão se limitar a si mesmos. Buscarão sempre se desenvolver e expandir. São necessárias ordens externas que lhes imponham limites e regras.

Estes só podem ser feitos, sustentados e exigidos pela consciência cidadã por meio do direito e da política. É evidente que, por razões meramente pragmáticas e de realismo fático, os lucros empresariais alcançados jamais serão infinitos, como por certo os acionistas em geral gostariam tanto. Mas não contemos com a economia e o mercado para a imposição de limites de ganhos a si próprios. Não o farão. Essa imposição de limites e de regras poderá ser feita por lei, mas ninguém até agora se dispôs a fazê-la. E é bem compreensível que assim seja. Afinal, paradoxalmente, como um governo pode censurar uma empresa de obter lucros ou queira limitá-la por lei quando a riqueza produzida por ela lhe garante também se beneficiar pela arrecadação tributária? O que está em jogo é menos o lucro das empresas e mais a sua redistribuição.

Assim, pode-se considerar a possibilidade de o governo fixar limites à riqueza individual, mas dificilmente o fará contra a empresa em si. Aplicam-se ao controle individual dos ganhos algumas tentativas não tão bem-sucedidas da experiência de alguns poucos países pela cobrança de impostos sobre grandes fortunas ou sobre heranças. Mas, sempre, se restringem ao nível individual. Não se pode perder de vista que o capitalismo globalizado dos tempos presentes se caracteriza pela desterritorialização, tanto do capital quanto dos acionistas.

Num mundo da informação virtual online, em tempo real, tanto um quanto outro se espalha por todo canto, não mais num só país ou região. É claro que também a discussão dos limites aos lucros das empresas possa ser levada avante, desde que produzida por um processo democrático legítimo. Mas é preciso não perder o foco para “não matar a galinha dos ovos de ouro”, empobrecendo o próprio país, ou fazendo-o perder por emigração os seus mais preciosos valores intelectuais, empreendedores, inovadores e criativos. No mundo das organizações horizontalizadas, com as cadeias globais de valor, não só os acionistas não têm pátria, as fábricas também não mais a têm. Muito menos os seus talentos.

A Redistribuição dos Ganhos

É perfeitamente compreensível que uma empresa queira obter o maior lucro possível. É parte de sua própria natureza. Não adianta acusar o leão de ser carnívoro. É da sua natureza também. Se a empresa é lucrativa é porque, em princípio, fez um bom trabalho. O que deve ser destacado, a questão principal que deve ser colocada, não é o lucro empresarial, mas a sua redistribuição. Eis aí a questão fulcral sobre a qual os governos em geral não têm atuado tão bem. É sobre ela que os governos, as leis e a fiscalização precisam atuar, é com ela – a redistribuição dos ganhos – que as relações de trabalho devem evoluir em todo o mundo, que a tão desejada justiça social poderá prosperar.

A Primazia aos Acionistas

A má distribuição da riqueza, as iniquidades produzidas pelas macrocorporações, a poluição do meio ambiente e todas as demais mazelas deste primeiro quartel de século são apenas sintomas, febres e calafrios de uma economia pervertida, que não está, primacialmente, a serviço do bem comum. A doença subjacente decorre da primazia conferida aos acionistas. A organização coloca toda a sua energia para garantir lucros crescentes aos acionistas, pouco se importando com quem paga o preço de tal privilégio. As organizações, de fato, detêm excessivo poder no mundo globalizado. O que não se percebe é o poder invisível a que a riqueza dos acionistas majoritários submete as organizações. No interesse de tornar o rico mais rico ainda, as organizações terminam por impor a todos nós verdadeiros tributos privados decorrentes de sua crescente taxa de ganância. E, assim, o poder financeiro constituído pelos acionistas transforma-se em uma aristocracia econômica. A contraditá-la, é preciso que surja incontinenti uma nova democracia econômica. As organizações concentram-se inexoravelmente, mais do que nunca, no ganho dos acionistas, mesmo que isso signifique a exclusão de todos os demais valores que lhe possam ser contraditórios, sejam eles dos empregados, do meio ambiente ou da participação acionária socializada. A crise econômica mundial de 2009, iniciada com a falta de liquidez das subprimes no mercado imobiliário americano, escandalizou a opinião pública de todo o mundo ao aportar remunerações milionárias absurdas aos maus gestores dos bancos, das seguradoras e das corretoras em falência, tudo sustentando pelo erário público.

O jornal Le Monde, nos idos de 2010 (edição de 12 de janeiro daquele ano), trazia importante matéria sobre o capitalismo francês, que “subsistia nas mãos de um clube fechado de acionistas proprietários“. Noventa e oito pessoas representam 43% dos direitos de voto nos conselhos de Administração, o que se agrava mais ainda pelo alto grau de relações familiares e consanguíneas entre elas. O capitalismo francês é um sistema oligárquico nem um pouco diferente da aristocracia de acionistas dominante em toda a economia mundial. Seríamos capazes de imaginar uma economia globalizada, em que as organizações pertençam às pessoas que nelas trabalham? Em que o conselho diretor requeira o exercício de obrigações fiduciárias a todos os que contracenam com a empresa, dos empregados à comunidade, como aos proprietários ausentes?

Quando julgamos que uma organização obteve bom desempenho no balanço que apresentara, queremos dizer que os seus acionistas obtiveram bons ganhos. Não consideramos que, muitas vezes, em contrapartida, a comunidade em que se localiza a fábrica fechada para garantir melhores resultados de desempenho foi devastada com a perda de empregos e de renda, que o downsizing possa ter massacrado os empregados restantes por sobrecarga de trabalho. E ainda dizemos: a organização está muito bem. E tais mazelas não aparecem nos ditos balanços sociais, hoje tão em moda nas organizações. Os escândalos contábeis de empresas em todo o mundo, a começar, por exemplo, com a Worldcom, a Erron, a Parmalat, o Lehman&Brothers, a AIG e a Merril Lynch são ilustrativos sobre o quão obsoleto está o atual modelo empresarial prevalecente na economia mundializada. A cobiça dos dirigentes voltada para os interesses exclusivistas dos acionistas é uma das facetas disfuncionais da excessiva concentração de poder nas mãos de tão poucos.

Não conseguimos avaliar a transferência dos ganhos de produtividade da organização para o aumento dos ganhos dos empregados como o indicador de sucesso da organização. Ao contrário, os ganhos dos empregados são vistos como perdas ou gastos para a organização, o que revela o conceito inconsciente de que os empregados não são verdadeiramente parte da organização. Eles compartilhados de soberania econômica entre a comunidade, os trabalhadores e os proprietários dos bens de capital. É preciso agora, portanto, derrubar privilégios absurdos da aristocracia financeira, o que se fará através do desenvolvimento de uma nova ordem mundial essencialmente democrática. O que temos tido até hoje é o modelo de um capitalismo aristocrático. Devemos abraçar agora uma nova visão de capitalismo democrático, não mais como um sistema a serviço exclusivo dos proprietários do capital, mas um novo sistema em que a todas as pessoas seja permitido compartilhar os bens da riqueza, de acordo com a sua produtividade e participação, e no qual o natural capital ambiental e da comunidade seja liminarmente preservado.

A Exclusão Social

Os benefícios do capitalismo globalizado não são equitativamente distribuídos no conjunto da população e das nações, tornando ainda mais desigual a distribuição da riqueza. Duas classes emergentes surgem da globalização econômica: os novos milionários empreendedores (os de tecnologia de ponta e os financistas) e o novo proletariado lúmpen, recém-egresso das zonas rurais, absolutamente incapazes de conviver na sociedade do conhecimento. É a crise da exclusão social que se agrava intensivamente nas cidades de todo o mundo. As disparidades econômico-sociais serão cada vez mais gritantes, enquanto o terrorismo buscará, nas massas desvalidas, o seu exército de adeptos, e utilizará e desfrutará de conhecimentos e ac