As pessoas estão sempre em busca de um significado e de um propósito para as suas vidas, sempre à procura do encontro com a sua paixão, a razão de sua existência. E assim muitas vezes desgastam-se no rodízio incessante e insatisfatório que realizam de um grupo para outro, sem alcançar o que desejam: realizar em plenitude as suas necessidades.


Uma organização existe como um grupo de pessoas que se relacionam entre si para a realização de determinados objetivos, metas e missões. Não há recursos místicos ou mágicos desenvolvidos pelas organizações que sejam capazes de separá-los dos já pertencentes aos seus integrantes.


Os membros das organizações que praticam o cultismo corporativo, ou seja, o simbolismo verdadeiras seitas no trabalho, são atraídos pela enorme capacidade que estas têm de preencher os vazios existenciais de pessoas sequiosas de satisfação das necessidades de afiliação, de pertencimento, de atenção, de afeição e de interação social.


Elas são propensas a sentir que todos as aceitam, constituindo-se em verdadeiros grupos sociais que mutuamente se apóiam. Nessas organizações a atratividade se complementa pelo treinamento de doutrinação dos valores, hábitos, práticas e atitudes valorizados pelo cotidiano organizacional.


Não há eufemismo capaz de minimizar a verdadeira lavagem cerebral que as organizações praticam na inoculação de sua cultura no seio de seu corpo funcional. Pessoas sedentas de auto-aceitação tendem a ser facilmente atraídas, como se hipnotizadas, pela aceitação e atenção recebidas como membros de uma religião corporativa.


Em um esforço de diferenciação, igrejas emergentes procuram públicos cada vez mais específicos. O mesmo fenômeno repete-se no mundo do trabalho: as organizações também buscam colaboradores específicos, que tenham peculiaridades afins. É a tribalização tanto do trabalho quanto da religião, ambas dando conseqüência à dispersão de valores, opções éticas, gostos e preferências, hábitos e atitudes, práticas e visões diferenciadas de mundo que marcam os tempos presentes.


Para atrair os seus quadros, as organizações focam precipuamente as características individuais de personalidade, valores, ambições, visões de mundo e atitudes, isto é, tudo o que conforma o indivíduo como pessoa. Apenas subsidiariamente complementam com as habilidades e competências que a pessoa possua para realizar o seu trabalho.


Selecionam quadros fundamentalmente pela pessoa que é o candidato ao cargo mais do que pelo que saiba fazer. E para isso não é necessário a aplicação de testes psicotécnicos ou vocacionais sofisticados, mas se avalia o candidato pela resistência que apresente em ultrapassar inúmeras entrevistas de seleção, em que seja capaz de demonstrar o seu espírito de grupo, de vestir a camisa, de dar-se pela realização de um ideal, de jogar no time. Buscam, portanto, um tipo muito específico de personalidade na miríade de atipicidades que caracterizam a dispersão de valores do mundo de hoje. Na sociedade da tribalização, integram-se por identidades afins na constituição de mais uma tribo.


Objetivam pela ênfase na ética de resultados a obtenção de eficiência, da eficácia e da efetividade através do comprometimento de seus quadros à realização dos fins da organização.


Quando as pessoas são selecionadas pela predisposição que tenham a desempenhar determinado papel, a possibilidade de sucesso é incomensuravelmente maior. Afinal, tanto no ambiente de trabalho quanto fora o valor de cada pessoa é definido pelo que elas fazem, pela organização a que pertencem, pelo cartão de visitas que apresentam, pelos símbolos e totens que valorizam. Os quadros são atraídos pela predisposição em transformar a organização em seu próprio lar, como se todos fossem uma só família.


Normalmente, não contratam alguém para trabalhar numa área específica, mas para integrar a organização, onde, quando e em que função seja necessário. O candidato pode ser contratado para uma função específica, mas ele precisa ir muito além. Precisa ter uma personalidade individual própria e traços e características pessoais que se compatibilizem adequadamente à cultura organizacional, isto é, à sua doutrina, dogmas, fundamentos, a ideologia e os cânones gerenciais praticados pela organização. É preciso que sejam tão comprometidos com o que fazem que os seus trabalhos se tornem as suas próprias vidas.


No cotidiano das organizações transformadas em seitas, o trabalho absorve as funções da família porque é realizado por pessoas afins. Todos têm o mesmo interesse. Compartilham da mesma visão de mundo, projetam trajetórias existenciais similares, preferências esportivas, culturais e de lazer etc. E, assim, todos se sentem confortavelmente bem juntos, tanto no trabalho quanto fora dele.


As pessoas atraídas pelo cultismo corporativo dessas organizações esperam encontrar no trabalho todo o sentido de prestígio e de auto-realização, camaradagem, afeição e companheirismo, amizade e respeitabilidade, entretenimento e diversão, desafio e autonomia, segurança e independência. Aparentemente as organizações lhes possibilitam tudo isso. Pelo menos, é assim que se sentem. E assim as organizações controlam os seus membros, inculcando-lhes um idealismo corporativo que redunda na exclusão de todas as demais dimensões igualmente enriquecedoras da vida humana na família e na comunidade.


Dessa forma, todos desistem, na prática, de suas identidades como indivíduos para assumirem a identidade da organização. Pela prevalência conferida aos interesses da organização, esses colaboradores assim recrutados são profissionalmente realizados, mas crescentemente empobrecidos como pessoas no exercício das diferenciadas dimensões da vida humana.


Ao contrário do que se possa supor um nível exagerado de comprometimento do empregado com a organização nem sempre é a melhor maneira de consecução de desempenhos excelentes. Aqueles empregados que dedicam menos tempo ao trabalho porque se beneficiam de relações familiares saudáveis, como, por exemplo, os exercícios da maternidade e da paternidade, costumam obter desempenhos superiores.


Os frustrados e ressentidos por não usufruírem uma vida plena fora do trabalho muitas vezes apresentam desempenhos bem inferiores. É evidente que pessoas que conseguem desfrutar de uma vida equilibrada entre família, organização e comunidade normalmente são bem mais produtivas e realizadas em comparação com aquelas que têm o seu “eu”, como indivíduos e pessoas, seqüestrado pela vida desbalanceada com o foco predominante no trabalho.


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